Bom dia – tarde – noite!

Bom dia – tarde – noite!

No ônibus, tudo se começa com uma intenção:

“A arte é ferramenta de um povo. Expressão da vida, angústias, prazeres, incoerências, de um homem, de muitos homens, nascidos neste solo. A arte nasce de um mundo, deste mundo, e não de outro. A arte nasce do homem, e deve voltar a eles: deve povoá-los!”

Olhos surpresos, admirados, outros vacilantes. E assim começa a apresentação. Músicas, poesias, e, por alegria, alguns aplausos no final. Agradecemos, passamos o chapéu, e partimos em direção a mais um ônibus.

Pra começar, os nomes: Marcus Azulay e Carla Sardinha. Dentre outras coisas que fazem, trabalham com arte de rua nos coletivos da cidade do Rio de Janeiro. Esse Blog – uma parceria entre os dois – tem o intuito de esclarecer um pouco desta prática, do contato com as pessoas, do que se passa pela cabeça de quem se aventura a subir nos ônibus cantando e recitando poemas (músicas e versos que muitas vezes o ronco do motor atrapalha de se ouvir plenamente), de histórias que acontecem no dia-a-dia e, sobretudo, criar uma rede de troca e sugestões da arte libertadora.

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Aboparu – O homem que come gente

Tarsila do Amaral nasceu há exatamente 125 anos no interior de São Paulo. Aos 32 anos começou a ter aulas de desenho e pintura no ateliê de Pedro Alexandrino, onde conheceu Anita Malfatti. Amaral e Malfatti são consideradas figuras centrais da primeira fase do movimento modernista no Brasil.

Estudou na França até 1922, quando soube da Semana de Arte Moderna através das cartas da amiga Anita Malfatti. Quando voltou ao Brasil, as duas formaram o grupo dos cinco ao lado de Menotti del Picchia, Oswald e Mário de Andrade. Segundo a própria Tarsila, antes ela só havia realizado estudos acadêmicos e  em São Paulo entrou em contato pela primeira vez com a arte moderna. Em dezembro de 1922, voltou.

Tarsila afirmou que as cores que gostava na infância, mas que seus mestres consideravam caipiras e não devia usar nos quadros, voltou à tona com sua visita a Minas Gerais. Essas cores se tornaram a marca registrada de sua obra através das paisagens rurais e urbanas, fauna, flora e folclore brasileiros. A sua intenção era ser a pintora do Brasil. Esta fase da sua obra é chamada de Pau Brasil, representada por quadros maravilhosos como Carnaval em Madureira, Morro da Favela, EFCB, O Mamoeiro, São Paulo, O Pescador etc.

Em 1928, Tarsila pintou o Abaporu, como um presente de aniversário ao seu marido Oswald de Andrade. Raul Bopp e Oswald de Andrade acharam que a pintura no quadro parecia uma figura indígena, antropófaga. Tarsila então se lembrou do dicionário Tupi Guarani de seu pai e batizou o quadro com o significado de “homem que come gente”. A partir desse momento, Oswald escreveu o Manifesto Antropófago, fundando o Movimento Antropofágico que era simbolizado pelo Abaporu. Outros quadros de Tarsila do Amaral da fase Antropofágica são: Sol Poente, A Lua, Cartão Postal, O Lago, Antropofagia, entre outros. Nesta fase, sua obra ficou marcada pelos bichos e paisagens imaginárias, além das cores fortes.

Tarsila foi expor em Moscou em 1931 e se identificou com a causa operária, sendo até presa por participar de reuniões do Partido Comunista Brasileiro. Contudo, depois do incidente, não voltou a se envolver com a política. Dois anos após a confusão, pintou Operários. Conhecida como fase Social, a representação em sua obra ocorria por meio de temáticas tristes. Entretanto, durou pouco em sua obra. Em 1950, a artista voltou à sua primeira fase, Pau Brasil, pintando os quadros Fazenda, Paisagem ou Aldeia e Batizado de Macunaíma. Um ano depois, em 1951, participou da I Bienal de São Paulo. Nas duas últimas décadas de sua vida, 1960 e 1970, Tarsila teve muitos problemas de saúde, o que resultou em sua morte em 1973.

Fonte: Museu de Arte Moderna da Bahia

Subir num ônibus

Subir num ônibus, cantar uma canção, declamar um poema,  colocar-se perante um público desconhecido, às vezes amedrontado, surpreso, desinteressado, encantado – sabe-se lá o que nos espera de toda esta situação. Mas sabemos ao menos, e isto muito importa, de onde viemos: de nós mesmos, das nossas convicções e modos de vida, formas de ver, olhar, sentir as coisas, formas de se construir no mundo enquanto pessoa e de nele se aventurar.

Subir em um ônibus é uma das experiências máximas do nosso aventurar-se na vida. O que levamos ao ônibus são apenas as coisas que temos em nós, nos habitam – canções, poemas (‘nossos’, de você, leitor, e de todas as pessoas, pois a arte é feita para todo o homem que dela resolva se alimentar).

Subir nos ônibus da cidade levando arte carrega em si uma proposta nova de vida. E que ao mesmo tempo sempre pode esbarrar em um acontecimento não previsto: o ônibus frear bruscamente, a palavra não ser entendida, ninguém prestar atenção, ou até mesmo alguém se revoltar com a proposta. “Não há medo de desaprovação dos outros?”, poderiam nos perguntar. Mas o que nos orienta é saber que a aprovação de si mesmo deve vir de dentro de si, de acreditar naquilo que se faz, acreditar no que desejamos semear, na mensagem que tentamos repassar e fazer ecoar lá do outro lado de lá, e vermos sentido em tudo isto.

Subir em um ônibus é uma questão de fé, fé na mensagem, fé em nós mesmos e fé na vida. Daí em diante, perna pro mundo!

Adiante, companheiros!

A ideia de tocar em coletivos da cidade não é nova.
Muitos já fazem, já fizeram, principalmente em outros países, como os da Europa.
Por acaso recentemente até houve um festival de música no Metrô de São Paulo.
O que não quer dizer que isto não represente certa surpresa e curiosidade daqueles que de repente são surpreendidos por pessoas com seus violões, músicas, poesias, chocalhos, a subirem no ônibus, pedirem por um momento de atenção e começarem o ‘espetáculo’.
Talvez possa não ser ‘o’ grande espetáculo, pois às vezes o motor do ônibus, as pessoas conversando, o barulho de uma sirene, impedem que a mensagem fique clara, a voz e o violão fiquem altos. Mas acredito que a ideia é menos de ser um show do que a necessidade de repassar uma mensagem a todos. Uma mensagem de vida, de acreditar em outras formas possíveis de existência, de um olhar novo para as coisas, de pensar sobre o que acontece no mundo.
Não é a toa que, atualmente, a intervenção que propomos já se inicia com um belíssimo soneto de Alphonsus: “De tanto me ir, de estar sempre chegando, que sede em mim de alguma permanência(…)”. Talvez resida aí a grande consistência do projeto, estarmos sempre chegando em cada ônibus. Cada vez que chegamos propomos uma nova forma de olhar para a vida. Primeiramente porque é muito comum, infelizmente, ver em certas pessoas um certo ar de piedade por estarmos fazendo o que ali estamos fazendo. Talvez por um momento se pense que por estarmos ali pedindo a atenção estamos pedindo mais coisas também, e por isso sermos pedintes. Mas acredito que a impressão se esvai quando se pode ver que o que ali fazemos não vem senão com muita alegria de vida, e justamente se trata de repassar isto. “Viver e não ter a vergonha de ser feliz” , como já nos disse Gonzaguinha. Com o poema de Cecília, falamos da necessidade de sermos eternos, mas não com um projeto maquínico-genético-biológico, com drogas que cessem o nosso envelhecer. Ser eterno é ser presente em cada momento, em cada instante de vida, ver que a vida, o universo, todos somos conectados por uma energia e que a morte nada mais é do que, quem sabe, virar uma estrela. Continuarmos o ciclo de vida que nos transcende e nos ultrapassa, mas que também nos constitui como seres viventes.
A mensagem, claríssima, é: viva a vida!
Como diz Fernando Pessoa, navegar é preciso, que naveguemos então!
Até o próximo ônibus!

Soneto da Permanência – Alphonsus de Guimaraens

De tanto me ir, de estar sempre chegando

Que sede em mim de alguma permanência.

Não sei se estive além e nem sei quando voltarei

Porque tudo é inexistência.


O sol nunca terá a mesma ardência

Mas sempre, sempre me estará chamando.

E eu não me irei porque sem consistência

É o chão de sonho que ora estou pisando.


Cidades vi, que agora que aparecem

como nunca jamais nem terão sido.

E as grandes vozes, que conturbam, crescem.


Mas de tão longe que direi somente

que não me fui, que, se tivesse ido,

não estaria chegando eternamente.


Alphonsus de Guimaraens Filho, 1917.

Vida do Viajante – Luiz Gonzaga e Gonzaguinha

Luiz Gonzaga, como um grande artista popular vindo diretamente do Nordeste, nos faz lembrar que a cultura popular somos nós que fazemos. Está aí um artista que reafirma a vida do nordestino, com suas belas músicas do sertão, da cultura do Nordeste e também das tristezas e alegrias de se viver onde quer que se esteja.

Vale notar a participação do seu filho, Gonzaguinha, outro grande artista da música popular brasileira, e de Wagner Tiso no piano, outro monstro da nossa música.

Viva a cultura brasileira!

Cântico VI – Cecília Meireles

 

Tu tens um medo:

Acabar.

Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo o dia.

No amor. Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles, 1982.